AREA EM CULTIVO CAI PELA METADE
No perímetro irrigado, 1500 agricultores já foram demitidos neste ano por conta da crise da água
Os pivôs centrais, antes símbolo do avanço tecnológico na irrigação de grandes áreas, hoje estão parados, sendo cobertos pela mata que cresce no terreno ocioso. Os investimentos foram frustrados diante da falta d'água
A crise hídrica afetou consideravelmente o setor de fruticultura. Em algumas das grandes empresas instaladas no local, todo aparato para a produção e colheita de melões e melancias está parado em grandes galpões
Russas. Redução de 48% dos hectares em cultivo, racionamento de água, suspensão da produção de algumas culturas e demissões em massa. Esse é o retrato atual do Perímetro Irrigado Tabuleiro de Russas. Muito diferente de dois anos atrás, quando se encontrava em plena produção com perspectivas de expansão.
Com a crise hídrica que o Estado sofre, o distrito irrigado recebe de água apenas 1,2m³/s, oriunda do Açude Castanhão, o que não tem sido suficiente para manter a produção em seus 5 mil hectares. Só neste ano 1.500 pessoas foram demitidas.
Os pivôs centrais, antes símbolo do avanço tecnológico na irrigação de grandes áreas, hoje estão parados, sendo cobertos pela mata que cresce no terreno ocioso. Desde setembro do ano passado, o equipamento foi proibido de ser utilizado para irrigar novas áreas, em função da insuficiente recarga dos açudes que abastecem o Perímetro. Quem teve coragem plantou de sequeiro, valendo-se da pouca chuva que tem sido registrada durante este ano. Alguns produtores arriscaram o plantio de grãos, com milho e feijão.
Em janeiro, estavam em produção 3,2 mil hectares, sendo 2,6 mil de culturas perenes (que não precisam ser replantadas após sua colheita) e 600 ha de culturas temporárias. Como a prioridade da água é para culturas perenes, os 600 ha de temporárias estão parados. Os plantio de grãos e algumas frutas, como a melancia e o melão, foram suspensos.
De acordo com um levantamento do Distrito do Projeto de irrigação Tabuleiros de Russas (Distar), já foram demitidas 1.500 pessoas, sendo que cerca de 1.300 só nos cultivos de melão e melancia, culturas que demandam mais mão de obra e possuem valor de mercado maior. Em algumas das grandes empresas instaladas no local, todo aparato para a produção e colheita dessas frutas está parado em grandes galpões.
Investimentos
O problema também freou a perspectiva de expansão e modernização de algumas empresas, como é o caso da Meri Pobo. Segundo conta seu gerente comercial, Kling Dantas, de toda a área de um mil hectares adquiridos por investidores estrangeiros, apenas 10% está em produção. "Tivemos que demitir 15 dos 45 funcionários que tínhamos e não sabemos como vai ser a partir de junho. Se o Perímetro estivesse funcionando normalmente, estaríamos gerando 140 empregos diretos neste ano e estaríamos implantando a terceira etapa da produção", lamentou.
Dantas acrescentou também que os investimentos em pivôs centrais e equipamento para a implantação de uma agroindústria na empresa foram frustrados diante do problema da água, todo o material está parado no campo. A empresa está operando com as culturas de goiaba e coco, tentando atender a pedidos de exportações para Holanda. "Temos mercado, o que não temos é fruta para atender a procura", lamentou Kling.
A situação se encontra em um nível considerado "crítico" pelo gerente executivo do Distar, Roberto Cadengue. Ele alerta que, se não houver uma ação urgente dos governos, o Perímetro poderá parar suas atividades a partir de junho, quando ocorre a reunião de alocação de água para o segundo semestre, feito pelo Comitê de Bacias, que tem à frente a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh). O cenário, afirma ele, é um dos piores para a geração de empregos na região, bem como para a oferta de produtos no comércio e para as exportações.
Até o fim de 2014 o Perímetro mantinha uma área irrigada de 5 mil hectares, gerando 5 mil empregos diretos no setor. Mesmo com as dificuldades em relação à diminuição do nível do Açude Banabuiú, principal reservatório que abastecia o Perímetro, o Distrito Irrigado conseguiu fechar o ano com o Valor Bruto de Produção (VBP) acumulado em R$ 102 milhões. Devido ao baixo nível do Banabuiú, o Tabuleiro de Russas conta com a liberação de água do Açude Castanhão, considerada pelo gerente insuficiente para operar o Perímetro.
"Para manter essa demanda que tínhamos até o fim do ano, seria necessária uma vazão de água de 4m³/s. Até o fim do ano passado recebíamos 2,2m³/s e atualmente 1,2m³/s, então não tem a menor condição de continuar operando dessa forma. O Perímetro vai parar no segundo semestre se nada for feito", alertou o gerente do Distar.
Crítica
Cadengue critica a atual distribuição de água do Açude Castanhão, considerada por ele como desigual. Além disso ele alerta para o uso indiscriminado da água no entorno dos grandes açudes cearenses, onde poucos possuem outorga.
"Só quem pode fazer alguma coisa é o governo. Temos buscado entrar em contato com todas as esferas, da presidência aos deputados, para tentar salvar o Tabuleiro de Russas. Infelizmente até agora não deram retorno de nada", concluiu gerente executivo do Distar.
Mais Informações:
Distrito do Projeto de irrigação Tabuleiros de Russas (Distar)
Sítio Umari - Russas
(88) 3423-3705
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