DRAGÃO DO MAR SEDIA, NESTE DOMINGO, UM ENCONTRO QUE ENVOLVE LITERATURA POPULAR
O cordelista Klévisson Viana e a contadora de histórias Josy Maria: parceria
FOTO: BRUNO GOMES
A matéria prima é a mesma: a palavra. Com a compreensão de que as histórias podem existir das mais diversas maneiras, contadores e cordelistas cearenses vêm se aproximando em torno de uma luta que visa multiplicar os espaços capazes de disseminar a literatura popular.
Imersos numa arte que nem sempre é foco das atenções do poder público e das instituições culturais, eles se empenham para promover seus eventos e vão conquistando apoio aos poucos: por meio de espaços cedidos, de editais, do compromisso dos amigos artistas. Nas próximas semanas, o Ceará vira palco de eventos que convidam o público a conhecer diferentes aspectos da literatura popular.
O primeiro deles - um encontro entre contação de histórias e literatura de cordel - está marcado para este domingo. Por volta das 19 horas, no Espaço Rogaciano Leite Filho, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a cordelista Josy Maria e o narrador cabo-verdiano Américo Fortes (conhecido como palhaço Xclumbumba) contarão histórias e declamarão versos inéditos ao som de emboladas para o público. O evento faz parte do projeto "Cordel com a corda toda", realizado mensalmente há cerca de dois anos.
Durante a apresentação, o público terá acesso a declamações que contemplam desde um breve histórico sobre a literatura de cordel na Europa até a produção de diferentes autores - incluindo o poeta homenageado nesta edição, Carlos Arruda.
Também haverá espaço para a contação de histórias, com o palhaço Xclumbumba, que veio de Cabo Verde ao Ceará com objetivo de participar de um projeto em circulação por seis cidades cearenses.
"Os trovadores antigos, assim como os repentistas de hoje, são contadores de história. Tudo é a mesma arte", afirma Josy Maria, que participa pela primeira vez do "Cordel com a corda toda".
Iniciativa
O projeto, idealizado pelo cordelista Klévisson Viana, já reuniu nomes atuantes da literatura popular, como Chico Pedrosa, Geraldo Amâncio Pereira, Zé Maria de Fortaleza, Tião Simpatia, Rouxinol do Rinaré, Gonçalo Ferreira da Silva e Paulo de Tarso. A ideia, conta Klévisson, é ampliar ações que reúnam a produção popular por meio de recitais, música, poesia e contação de histórias.
"Eu passava no Dragão do Mar e via aqueles espaços ocupados com cultura que nem sempre era nordestina ou brasileira. Pensei: se tem espaço para essas coisas de fora, para o hip hop, tem que ter espaço para o cordel também. Fomos conversar com a gestão, que cedeu o espaço. Não temos suporte econômico, mas temos espaço importantíssimo. Temos mantido o projeto com a colaboração dos amigos artistas. Até hoje nunca faltou atração", comemora Klévisson.
Há um movimento constante dos cordelistas cearenses para multiplicar espaços destinados à disseminação da literatura popular. "Temos que disputar os espaços com muita luta", diz Klévisson. Segundo ele, não há entusiasmo evidente das instituições ou mesmo do poder público para ampliar as iniciativas. "Nós, artistas, é que estamos sempre procurando meios. São poucas instituições que promovem isso".
Apesar das dificuldades, Klévisson ressalta que os espaços já conquistados têm sido fundamentais para a literatura de cordel cearense e para os poetas populares. O Centro Dragão do Mar, por exemplo, disponibiliza há cerca de 15 anos espaço para a exposição de obras em cordel. O local já se tornou endereço certo para adquirir obras, conhecer a produção atual ou mesmo contatar cordelistas.
"Costumamos receber pesquisadores de diferentes lugares do mundo. É um espaço fundamental para a literatura de cordel, porque o turista ou o fortalezense já sabem que ele existe. Essa parceria tem sido proveitosa tanto para o cordel quanto para o Centro Dragão do Mar, porque agrega valor", declara Klévisson.
Lançamento
A literatura de cordel tem ganhado cada vez mais relevância, seja pelo seu valor cultural ou mesmo pelo diálogo com outras áreas - a exemplo da educação e da saúde. Visando a disseminação desse contexto, o projeto "Cordel com a corda toda" costuma, além de oferecer a feirinha com obras de diferentes artistas, promover lançamentos de novos livros e folhetos.
Neste domingo, por exemplo, além da contação de histórias com Josy Maria e Xclumbumba, será lançado o livro "O grande encontro no céu da Beira-Mar", da pedagoga Leila Freitas. A obra, ilustrada por Klévisson Viana, tem como objetivo fazer com que as crianças conheçam importantes nomes da cultura nordestina e mesmo conhecerem um dos principais pontos turísticos do Ceará, com histórias contadas em versos de cordel.
"Sou professora alfabetizadora em Quixelô, então já tinha publicado um livro de contos infantil. A ideia de 'O grande encontro' foi exatamente resgatar nossa cultura popular. Mostrar as marcas que Patativa, Lampião, José de Alencar e Luiz Gonzaga deixaram", explica a autora.
Para participar do evento, Josy dá uma pequena pausa no projeto itinerante "Cordão de Histórias na Estrada", que realiza pelo interior do Ceará. A apresentação traz também uma prévia de outros eventos que ela vem desenvolvendo com o narrador Américo Fortes e com o grupo Costureiras de Histórias. Juntos, eles já se apresentaram por cidades como Fortaleza, Redenção, Maranguape e Itapipoca. O último município a receber o projeto - que tem apoio do Banco do Nordeste - é Sobral.
"Buscamos parceria com o BNB através do programa Arte Itinerante porque sabemos que eles levam produções artísticas para os lugares mais distantes, muitos até sem programação cultural. Temos recebido resposta muito positiva. Crianças e adultos tem se divertido com o sotaque diferente do palhaço Xclumbumba, que traz histórias de Cabo Verde, e com as diferenças culturais", diz Josy.
No início de maio, é a vez dos Cucas de Fortaleza receberem o grupo. As atividades, que integram o terceiro Encontro Internacional de Contadores de Histórias - Cordão de Histórias, ainda contemplarão uma programação extensa entre os dias 20 e 28 de maio, em Fortaleza e no Cariri.
A contadora de histórias explica que a literatura de cordel é parte constante de seu repertório. "Inclusive, a apresentação dos narradores nesse projeto é feita com cordel e com emboladas", diz. Histórias podem ser contadas das mais diferentes formas, o importante é preservar essa diversidade e riqueza das maneiras de reproduzir os contos populares.
"No nosso encontro internacional, queremos um espaço especial para valorizar os artistas populares. Vamos ampliar as parcerias com o Klévisson porque fazemos a mesma arte", afirma. O cordelista, por sua vez, endossa o coro: "Prosa, verso e tudo o que a gente faz envolve contação de histórias. Estamos consolidando projetos para buscar apoios".
Fonte: Diário do Nordeste
