FOTOGRAFIA: O MESTRE SURREALISTA QUE SE RENDEU AO REAL
FOTOGRAFIA
O mestre surrealista que se rendeu ao real
13.04.2015
Livro mostra a atualidade das ideias de Henri Cartier-Bresson, ícone do fotojornalismo ocidental
Imagens de Cartier-Bresson: a pintura, na verdade, foi parte fundamental no desenvolvimento da obra do fotógrafo, tido como um dos pais do fotojornalismo
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É preciso aprender olhar. A lição é passada pelo fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1908- 2004), que viveu na pele e no espírito as contradições do século XX, conseguindo fazer a travessia para o século XXI com importante legado - que, aliás, vai além da fotografia. Considerado "um dos pais do fotojornalismo", as lições do fotógrafo-artista, que não permitia qualquer manipulação nas suas criações, em nome do respeito ao real, caem como uma luva numa época em que é possível observar uma queda de braço, muitas vezes desigual, travada entre o simulacro e a realidade.
Por isso, o tempo é propício para revisitar as ideias do fotógrafo de influência surrealista, que foi buscar nas aulas de pintura acadêmica a afinidade com a geometria para começar a desenhar com a luz, a partir dos anos 1930. Essa é a sensação que se tem ao ler "Henri Cartier-Bresson - Ver é um todo - entrevistas e conversas 1951-1998", organizado por Clément Chéroux e Julie Jones. Assim é possível compreender a necessidade de alfabetizar os olhos para que possam não apenas ver, mas também ler imagens. Mais do que momentos captados da realidade, são textos pictográficos que contêm mensagens a serem decifradas e sentidas.
Prisioneiro
Defensor do respeito ao real, Bresson deixou algumas fotografias que viraram ícones do fotojornalismo ocidental - muitas parecem conter um pouco de sua personalidade e história de vida. A preferência pelo preto e branco dá uma pista. Na época da Segunda Guerra Mundial, alistou-se no exército francês, virando prisioneiro de guerra durante a invasão alemã.
Tentou fugir três vezes, conseguindo na última. Talvez por isso não tenha gostado do filme "A lista de Schindler", de Steven Spielberg, confessando ter ficado abalado. "Pensei nos amigos que perdi. Com eles, foi verdade. Há coisas que não se deve mexer", recomenda.
O período deixou feridas no fotógrafo, que virou um exilado. No passaporte, o espaço dedicado à nacionalidade foi preenchido com o nome "prisioneiro de guerra". Os episódios vividos marcaram a trajetória e a fotografia de Cartier-Bresson. Considerado um libertário, juntou-se à Resistência Francesa para lutar pelos ideais de liberdade, depois de ter frequentado reuniões, embora não ter feito parte do grupo surrealista comandado por André Breton, entre 1926 e 1927. Outro momento marcante na carreira aconteceu depois da Segunda Guerra, em 1947, ao criar a agência Magnum com os colegas Bill Vandivert, Robert Capa, George Rodger e David Seymour chamado de "Chim".
Paixões
Dono de trabalho sofisticado, Bresson deixou uma obra que parece ter vida e falar com os espectadores. Nos textos é possível identificar as várias faces de um artista, inclusive as contradições - como quando compara o fotógrafo a um batedor de carteira ou ladrão, fazendo referência à invasão de privacidade das pessoas.
No Oriente, constatou essa disparidade, quando as pessoas não queriam ser fotografadas. Avesso à escrita, preferindo captar momentos com as lentes da sua câmera, o admirador dos pintores Pierre Bonnard, Paul Cézanne e Henri Matisse mostrava muito de seu eu nas entrevistas, um dos méritos do livro.
Elas parecem descortinar um outro Cartier-Bresson, que fala sobre vida, amor, política e cinema (outra linguagem artística pela qual excursionou). Elegante e dono de um clique preciso, o homem que gostava de economizar palavras constitui também um desafio para os seus entrevistadores. Talvez, quem sabe, falasse mais com o olhar, os gestos ou quando ficava calado e pensativo. Sem dúvida, um trabalho desafiador que tenta fazer um três por quatro do artista que disse ter o século XX acabado em 1950.
Composta por 12 entrevistas ou conversas, algumas adaptadas do audiovisual, a obra sintetiza bem o pensamento de Cartier-Bresson, ao construir histórias que dispensavam as palavras. "Observo, observo, observo. É através do olhar que compreendo", como escreveu em 1963, numa demonstração de que privilegiava a imagem, fazendo dela sua forma de expressão. Nas obras publicadas em vida, contam-se, no máximo, quatro ou cinco textos escritos de próprio punho.
"Cartier-Bresson preferia deixar aos amigos escritores o cuidado de aplicar palavras a suas imagens", escrevem os organizadores da obra. A maior parte das entrevistas nunca tinha sido reeditada pela dificuldade de encontrar os originais. São passagens de quase 50 anos de vida de um dos mais importantes fotógrafos do século XX.
Expressão
Para Cartier-Bresson, a fotografia era um meio de expressão como a música ou a poesia. Apaixonado pela arte de contar histórias com imagens, testemunhava com elas momentos históricos vivenciados em diversas culturas, como os últimos dias de Gandhi.
"Nós fotógrafos nos apegamos menos à prova estética em si - qualidade, tom, brilho, matéria - do que à imagem em que a vida é a primeira coisa a se manifestar, antes do esteticismo. Em suma nossa imagem final é a impressa. Elas não são fotografias de exposições", revela.
A colocação é oportuna, ao defender o respeito ao real. E acrescenta: "Em primeiro lugar, uma foto de exposição não precisa de palavras, apenas de um título, o que as nossas têm uma legenda, que não exatamente um texto explicativo - antes é um contexto verbal da imagem, que a circunscreve. Escrevemos sobre a imagem, não fazemos a imagem para o texto".
Na opinião de Cartier-Bresson, o fotógrafo assume identidade ambígua diante do mundo, ao ser espectador e ator simultaneamente.
Fonte: Diário do Nordeste
