MAIORIA CONSIDERA A ACORDO DE PARIS UM AVANÇO PELO PLANETA
Maioria considera o Acordo de Paris um avanço pelo Planeta
É a primeira vez que a COP do Clima consegue acomodar os interesses conflitantes em um único texto
Estima-se que 30 mil pessoas foram às ruas de Paris, no sábado, após a COP21 ( Foto: KRISTIAN BUUS )
Os representantes dos 195 países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovaram, no sábado passado, o Acordo de Paris, primeiro marco jurídico universal para deter o aquecimento global. O documento oficial da 21ª Conferência das Partes (COP21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) tem caráter "legalmente vinculante", ou seja, obriga todas as nações signatárias a organizar estratégias para limitar o aumento médio da temperatura do Planeta a 1,5ºC até 2100 e também prevê US$ 100 bilhões por ano para projetos de adaptação aos efeitos do aquecimento a partir de 2020.
Trata-se do mais amplo entendimento na área desde o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997, apesar de não fixar metas globais numéricas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Mesmo não deixando muito claro como isso será feito, o Acordo contém os pilares para promover a transição para um mundo sem carbono.
"O texto não traz toda a clareza sobre os caminhos que precisamos seguir. Mas ele tem elementos importantes desse processo. A referência do 1,5ºC significa que nós, da sociedade civil, podemos cobrar atualização da INDC, dos investimentos, dos planos. Começa em Paris um novo regime climático", disse Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.
Liderança da negociação, o governo francês pretende convencer os países a revisarem, até 2020, suas metas de redução de poluentes, as Contribuições Nacionalmente Determinadas (INDCs), um dos principais debates para os próximos anos em torno do tema. Pelo documento, o cenário global das metas será analisado a cada cinco anos, mas sem obrigar os países a melhorarem seus compromissos mesmo que o objetivo de limitar o aquecimento entre 1,5º-2ºC não esteja sendo alcançado.
Nova Revolução Industrial
O setor privado já está convencido de que o eixo da Economia está prestes a mudar e que esta será a oportunidade de negócios do século. A tendência é que países e governos invistam cada vez mais nas energias limpas. O Brasil e a União Europeia apresentaram, na semana passada, uma proposta de criação de um novo mecanismo de mercado de carbono. A ideia é ampliar as possibilidades de se negociar créditos, mas, para isso, é preciso investir em tecnologias que possam reduzir as emissões nos países em desenvolvimento. Mas, no lugar de só as nações desenvolvidas fazerem isso, o plano é incluir todos os países signatários do Acordo de Paris.
"É como se fosse uma nova Revolução Industrial", disse, já nesta semana, o coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, Tasso Azevedo. "Começamos uma nova era, onde as pessoas estão alinhadas sabendo, para onde ir. Isso faz com que os investimentos comecem a ser feitos nessa direção e, provavelmente, daqui a 30 ou 40 anos, vamos lembrar desse fim de ano como o momento em que mudamos a forma de desenvolver. É como se fosse uma nova Revolução Industrial, agora com um objetivo atrelado a um desenvolvimento e tecnologia, que é a sustentabilidade e um clima seguro para todos", afirmou.
O Brasil, além de ter o seu desempenho nas negociações elogiado pessoalmente pelo presidente dos Estados Unidos, Barak Obama (revelação desta COP), ganha pelo seu potencial natural para a produção de energias renováveis, já que todas as metas apontam para a descarbonização da Economia.
Divergências
Por outro lado, se a maioria considerou o resultado da COP positivo, há quem duvide que o Acordo consiga cumprir sua promessa de reverter o ascendente processo de Aquecimento Global. "As metas do Acordo de Paris não são consistentes com os 2ºC. Não são baseadas em ciência e não têm nada a ver com equidade", declarou Kevin Anderson, professor do Centro Tyndall de Pesquisa sobre Mudança Climática, da Universidade de Manchester. "Faz 25 anos que nós sabemos tudo de que precisamos saber para combater as Mudanças Climáticas, mas as emissões hoje são 60% maiores do que eram nos anos 1990. Estamos continuando a nos travar em uma trajetória de cem anos de uso de combustíveis fósseis", disse Anderson. Ele faz parte de um grupo crescente de cientistas, economistas e analistas políticos que acham que a humanidade já perdeu a chance de manter o aumento da temperatura da Terra abaixo de 1,5ºC e que mesmo o limite de 2ºC é muito mais provável de ser ultrapassado do que de ser cumprido.
Juventude de olho
Na plenária final da COP21, como de costume, organizações observadoras tiveram a oportunidade de se pronunciar oficialmente. O Youth Climate Movement (Youngo), que reúne as organizações da juventude em todo o mundo na questão climática, escolheu como sua representante a coordenadora-geral da organização não-governamental (ONG) Engajamundo, Raquel Rosenberg. Foi a primeira vez que uma jovem brasileira discursou como representante da juventude global numa plenária final de COP.
Em sua fala, Raquel deixou claro que, mesmo com o novo acordo aprovado, o trabalho não pode parar e a juventude continuará se esforçando para pressionar os governos em torno de ações mais ambiciosas.
Fonte: Com informações da ONU Brasil, Observatório do Clima,Agência Envolverde, Instituto Socioambiental e Agência Brasi
