O SOM E A HERANÇA DA SANFONA DE OITO BAIXOS
Núcleo de pesquisa dedica-se à valorização dos tocadores, à difusão do instrumento e à formação de músicos
O mestre Chico Paes, 90 anos, tocador de sanfona de 8 baixos de Assaré ( Foto: Nívia Uchôa/Divulgação )
Luiz Gonzaga aprendeu cedo com o "véi Jacó". "Tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso/E com ele ninguém vai, Luiz/Luiz, respeita os oito baixo do teu pai!".
A letra da canção "Respeita Januário", um dos hinos do Rei do Baião, faz referência direta à uma sanfona especial que, diferente das tradicionais, de 120 baixos, conta com apenas oito, fator que lhe garante um som diferenciado e técnica peculiar.
A dificuldade de manusear o instrumento dá aos seus poucos tocadores o respeito e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de difundi-lo de geração em geração. É normalmente de pai para filho que se dá essa passagem, mas algumas barreiras podem prejudicar o processo, e é contra elas que o Núcleo de Pesquisa e Expressão da Sanfona de 8 baixos no Brasil, criado em 2012, vem se erguendo.
À frente do núcleo está o casal carioca Guilherme Maravilhas, multi-instrumentista e tocador da sanfona de 8 baixos, e Mirele Cristine, idealizadora e fundadora do projeto. Eles vieram do Sudeste para o Nordeste no fim de 2013, em busca das origens do instrumento e de pessoas que ajudassem a resgatar essa história.
Na região do Cariri, onde Luiz Gonzaga se apresentou por diversas vezes, resolveram se instalar. Primeiro, moraram em Nova Olinda. Depois, seguiram para o Crato, e de lá foram descobrindo, aos poucos, que existiam muitos tocadores antigos e iniciantes espalhados em Juazeiro do Norte e Tarrafas, contrariando a versão de quem lhes dizia que, no Ceará, só havia o mestre Chico Paes, em Assaré.
Referência
Reconhecido como Tesouro Vivo do Estado desde 2009, Chico Paes tem 90 anos. Nenhum de seus filhos teve interesse em aprender a tocar o instrumento e ele passou a vida carregando o conhecimento sem ter chance de transmiti-lo.
"Comecei a tocar com 8 anos; com 13, papai me liberou para tocar nas festas. Deu para ganhar dinheiro. Até que não foi difícil aprender, mas tem pouco tocador. Que toca bem, né? Que toca mal tem muito", brincou o mestre da cultura antes de subir ao palco da RFFSA, no Crato, para o show realizado na 17ª Mostra Sesc Cariri de Culturas, em novembro passado.
Da relação com Chico Paes, Guilherme e Mirele passaram a desenvolver algumas ações. Uma delas foi a elaboração de um livro biográfico do tocador, com um pouco de sua história e também letras e partituras do mestre. A ideia, aliás, será estendida para outros tocadores do Nordeste. "Nunca ensaiei para tocar em canto nenhum. Sempre que me sento para tocar, tenho meu repertório. Eu toco música dos outros e minhas também, no tempo que me derem", afirma o senhor de 90 anos, que, para Mirele lembra um garoto de 9 quando está em posse da sanfona de 8 baixos. "Ele está vivo e o que lhe faz mais feliz é poder tocar!", pontua a carioca.
Mais ações
Além da produção do "Livro do Tocador", o Núcleo de Pesquisa e Expressão da Sanfona de 8 baixos tem outros projetos em desenvolvimento, tais como os encontros de tocadores, a "Escola Portátil de Sanfona de 8 baixos", que visa a formação de novos instrumentistas, e também um mapa virtual, que irá reunir informações apuradas pelos diferentes lugares que o núcleo ainda pretende passar.
Agora em dezembro, o Núcleo já se encontra instalado na Paraíba, onde irá aprofundar as pesquisas com outras famílias tradicionais, tais como o "clã dos Calixtos", como reforça Mirele.
Preservação
Ainda que não conte com recursos diretos do poder público, atuando basicamente por meio de renda própria, o casal insiste e vislumbra continuidade para as ações.
"O projeto tem período estimado de dois anos na Paraíba e de lá vamos ver qual será o próximo ponto. Um dos objetivos é poder agregar. Aqui a gente tem apoio da Universidade Federal do Cariri, mas não tem professor de 8 baixos para assumir a escola do instrumento", lamenta Mirele.
"Em Pernambuco, que é muito perto, tem o tocador Truvinca, e estamos estimulando ele a assumir esse lugar de mestre que ensina. E a gente vai ficar ali nesse meio", explica a coordenadora do núcleo. O importante, afinal, como cantava Luiz Gonzaga, é respeitar os oito baixos de todos esses "pais" - guardadores cheios de ritmo de um pedaço de nossa cultura e, em última análise, de nossa identidade.
Curiosidades
Instrumento de origem europeia, trazido por colonos ao Brasil, a sanfona de oito baixos é mais conhecida na região nordeste como "pé-de-bode". O nome, de acordo com o Núcleo de Pesquisa e Expressão da Sanfona de 8 baixos, faz referência à constituição do instrumento -que, com poucos baixos, lembravam aos tocadores pegadas de bodes.
O "pé-de-bode" não é a mesma gaita tocada no Rio Grande do Sul. Mirele Cristine aponta diferenças tonais da caixa, que dão ao nordestino um jeito peculiar de apresentar o som.
O Nordeste já perdeu diversos tocadores de grande importância, como Abdias (de Taperoá-PB, falecido em 1991), Baú dos 8 Baixos (de Caruaru-PE, falecido em 2002) e Arlindo dos 8 Baixos, (da Paraíba, falecido em 2014).
Milton Nascimento, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Hermeto Pascoal e Sivuca deram suas primeiras notas musicais nesta sanfona.
Fonte: Diário do Nordeste
