Desemprego entre negros sobe em ritmo acelerado
A retração da oferta de trabalho foi um dos fatores que contribuiu para a elevação da desocupação em 2015
O desemprego afetou com mais intensidade as mulheres, sobretudo as negras que detêm a mais elevada taxa de desemprego total (9,7%) ( FOTO: NATINHO RODRGIUES )
O desemprego voltou a crescer em Fortaleza e Região Metropolitana no ano passado, especialmente entre os trabalhadores negros. De 2014 a 2015, o ritmo de expansão do desemprego entre a população negra (14,5%) foi quase o dobro do verificado entre os não negros (8%). As informações são da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) realizada para comemorar o Dia da Consciência Negra, celebrado no próximo domingo (20).
>Rendimento médio por hora recua 4,4% na RMF
A diferença é mais evidente quando se analisa a taxa de participação, que mensura a proporção de pessoas em idade ativa no mercado de trabalho como ocupada ou desempregada. Esse indicador, que nos últimos anos vinha convergindo para uma menor desigualdade entre os segmentos populacionais analisados, voltou a crescer de 2014 a 2015. Enquanto a taxa de participação da população negra caiu de 57,6% para 56,1%, a da não negra subiu de 57% para 57,9%, fazendo a diferença entre as respectivas taxas atingir 1,8 ponto percentual, o maior resultado em toda a série histórica da PED.
Com exceção do ano de 2013, a população negra enfrenta taxas de desemprego mais elevadas do que a não negra, mesmo com a significativa redução dessa disparidade registrada ao longo dos últimos anos.
"No ano passado, por exemplo, a crise econômica gerou impactos negativos para todos os segmentos e trabalhadores, mas os efeitos foram mais incisivos entre a população negra. As desigualdades, que vinham sendo reduzidas no nosso mercado de trabalho nos últimos cinco anos, ficaram mais evidentes", observa o coordenador de Estudos e Análise de Mercado do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), Erle Mesquita.
Mulheres
Em 2015, porém, o desemprego afetou com mais intensidade as mulheres, sobretudo as negras que detêm a mais elevada taxa de desemprego total (9,7%) se comparadas às não negras (8,5%), e aos homens, independentemente da cor (7,8%).
O estudo revela que, mesmo a taxa de desemprego masculina sendo tradicionalmente inferior à feminina, o aumento desse indicador ocorreu mais entre os homens do que entre as mulheres em 2015, independentemente da raça/cor. A PED sugere que isso se deve, possivelmente ,aos efeitos da crise econômica nos diferentes setores de atividade, como a construção civil.
A retração da oferta de trabalho foi um dos fatores que contribuiu para a significativa elevação do desemprego em 2015, ao ser registrado um declínio de 2% no nível de ocupação da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), a primeira variação (anual) negativa da série histórica da pesquisa. "Na pesquisa de 2017, o resultado deve ser pior em Fortaleza e Região Metropolitana, pois a estimativa é que a taxa de desemprego fique entre 12% e 13%. Em 2015, operava de 8% a 10%", afirma Erle.
Proporção de ocupados
As consequências dessa retração tiveram impactos significativos para a população negra na medida em que a proporção de ocupados nesse segmento populacional diminuiu - de 53,2% (2014) para 51,2% (2015) -, enquanto entre os não negros houve alta, passando de 52,8% para 53,2%.
Esse resultado está ligado aos impactos diferenciados da retração da oferta de trabalho nos principais setores de atividade econômica. Em 2015, as maiores perdas ocorreram justamente nos setores econômicos em que a força de trabalho negra está, proporcionalmente, mais presente do que a não negra, a exemplo da indústria de transformação (-6,5%) e da construção civil (-3,3%)
DN
