PROJETO DE IRRIGAÇÃO LEVA JOVENS DE IGUATU A LONDRES
Projeto Linhas, por meio do Senac e IFCE, campus de Iguatu, atende a 20 mulheres da Associação de Artesãs de Alencar ( Foto: Honório Barbosa )
Iguatu. Sete estudantes universitários do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE), campus de Iguatu, embarcam neste sábado (23) para Londres, para representar o Brasil na Enactus World Cup, última etapa da competição que começou com uma disputa nacional, em julho passado. Na bagagem, os jovens carregam esperança de vitória e a certeza de crescimento humano e profissional.
O projeto Mudas de Irrigação Barata e Eficiente foi o vencedor do Campeonato Nacional Enactus Brasil 2017. A competição é de maior destaque de empreendedorismo social da América Latina. Em Londres, a etapa final ocorre no período de 26 a 28 próximos. O time estudantil de voluntários é formado por 21 alunos do IFCE e um professor conselheiro, do curso de Irrigação, Tecnologia e Drenagem.
A competição nacional ocorreu nos dias 20 e 21 de julho, no Rio de Janeiro, e contou com a participação de mais de 2.500 pessoas (estudantes empreendedores, acadêmicos, professores e executivos). O objetivo era discutir temas relacionados às políticas públicas, mobilização e responsabilidade socioambiental.
Primeiro do Nordeste
"O time do IFCE de Iguatu foi o primeiro do Nordeste a ganhar um campeonato nacional da Enactus", comemorou a aluna Joice Coelho. "Agora vamos representar o Brasil em Londres e concorrer com mais 32 países".
O clima entre os alunos tem sido de emoção e corre-corre nas duas últimas semanas para angariar recursos para custear a viagem à Inglaterra, organizar documentação pessoal. "Estamos muito felizes em ver que o projeto, que é realizado no Semiárido nordestino, chegou ao alto nível de crescimento profissional e pessoal dos beneficiários", frisou o aluno Kevin Brasil, que é líder do time. "Tudo isso é incrível", completou.
Os estudantes, já vencedores da etapa nacional, acreditam que, com a premiação, é possível transformar a paisagem cinza da Caatinga em um verde cheio de esperança. "O que nos move é a transformação social das famílias e para isso usamos muita criatividade", destaca Kevin.
Na etapa nacional, o time do IFCE desta cidade, por meio do projeto Mudas, obteve três premiações de empresas que participam da articulação social. Da Fundação Cargil, o de melhor time do Brasil, arrebatando a premiação de R$ 7 mil; da Enactus Brasil/KPMG, obteve o de Melhor Projeto de Empreendedorismo Social do Brasil, sendo beneficiado com R$ 2 mil; e da Ford, conquistaram a categoria de reconhecimento e R$ 17 mil.
A aluna Joice Coelho observa que todos os prêmios conquistados serão revertidos para financiar a continuidade do projeto Mudas ou o início de novos projetos na região de Iguatu. "Esse é o nosso compromisso e dos próximos alunos e times que darão continuidade a essa nossa ação que já é vitoriosa", pontuou a estudante.
A equipe que viaja para Londres é composta de sete alunos: Joice Coelho, Cristina Lima, Kevin Brasil, Yara Araújo, Mateus Oliveira, Monalisa Sales e Diana Barbosa, além de um professor supervisor.
Projeto Mudas
O projeto Mudas nasceu em 2015 e busca direcionar produtores rurais de base de agricultura familiar, por meio de palestras e cursos, à produção agroecológica, evitar o desperdício de alimentos, manejo adequado do solo e da água para a produção de hortaliças e frutas em quintais produtivos.
O sertão nordestino vivencia um quadro de seca (chuvas abaixo da média) desde 2012. Há escassez de água no campo. Os agricultores de base familiar enfrentam enormes dificuldades. Em meio a essa crise, surgiram na região projetos de reúso de água cinza (banho, pia e lavatórios), por iniciativa do Instituto Elo Amigo, uma Organização Não Governamental (ONG) local ligada à Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). A ideia é reaproveitar a água para irrigação de vegetais não folhosos e pequenas áreas de fruteiras para assegurar a alimentação da família do produtor, bem como a obtenção de renda extra com a venda do excedente na própria comunidade e também em sítios vizinhos.
Kevin Brasil reforça que a iniciativa surgiu desse problema geral enfrentado pelos agricultores: a impossibilidade de produção mediante a seca e a falta de assistência técnica.
Comunidades
Atualmente, o projeto atende a seis comunidades da zona rural de Iguatu: Aroeiras, Riacho da Areia, Bravo, São José, Baixio dos Bastos e Umburana. Houve também a capacitação de 30 mulheres dessas comunidades para trabalhar em fábrica de processamento de alimentos.
Por meio do Projeto Mudas, os alunos aplicaram um sistema alternativo de aspersores, reduzindo consideravelmente os custos na irrigação os plantios não folhosos das famílias assistidas com o sistema de reúso da chamada água cinza. A ideia, que ganhou praticidade, foi a criação do "pirotec".
A partir do uso de palito de pirulito, prego e arame, é possível criar um sistema de aspersão por apenas R$ 0,07, enquanto que o convencional em lojas de material de irrigação custa cerca de R$ 1,50. "Mais de 15 famílias já foram beneficiadas", observa Joice Coelho. "A prioridade são aquelas famílias que têm o benefício da cisterna calçadão de 52 mil litros de água para o uso em irrigação dos canteiros de verdura", destaca.
O produtor rural de base familiar José Francisco de Araújo, da localidade Riacho da Areia, zona rural do distrito de José de Alencar, em Iguatu, há dois anos trabalha com o reúso de água graças ao programa implantado pelo Elo Amigo.
Apesar das dificuldades trazidas pela estiagem que castiga o Semiárido nordestino há seis anos, consegue produzir alface e cheiro verde. "Dá uma renda extra de R$ 300 por mês", contou Araújo. No quintal produtivo tem pés de acerola e criação de galinha capoeira. "A nossa salvação é a cisterna calçadão, que encheu com as poucas chuvas", frisou o agricultor.
Nos últimos anos, José Francisco Araújo tem "feito muito pouco", como costuma repetir, no plantio de arroz, milho e feijão na agricultura tradicional de sequeiro (aquele que depende exclusivamente da água das chuvas). Em uma sala da casa, sacos de arroz e um pouco de feijão. "O milho eu perdi tudo, mas tirei um pouco de legume para enfrentar o resto do ano, até o próximo inverno", diz. "Estou esperançoso de que teremos boas chuvas", completa.
Linhas
Em um salão de uma unidade de saúde da sede do distrito de José de Alencar está sendo desenvolvido o Projeto Linhas, por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e o IFCE, campus de Iguatu. A parceria atende a 20 mulheres da Associação de Artesãs de Alencar com a oferta de curso na área de corte e costura.
O treinamento prevê 220 horas e o objetivo é preparar as mulheres para a profissionalização, oferecendo oportunidade de trabalho e renda no campo. As participantes estão animadas com o desenvolvimento do curso. "Acreditamos que é através de cursos que vamos superar as nossas dificuldades e encontrar no mercado espaço", frisou a presidente da Associação, Gorete Freire.
Enquete
Qual é a sua expectativa?
"É com imensa alegria que vamos representar o Brasil nesta etapa da competição internacional da Enactus. Independentemente do resultado já somos vencedores por propor alternativas para a agricultura familiar"
Joice Coelho
Estudante do time da Enactus do IFCE Iguatu
"Estamos esperançosos na nossa vitória, mas sabemos que será muito concorrido com projetos de outros países. Os agricultores de base familiar estão motivados e produzindo em pleno período de escassez de água"
Cristina Lima de Assis
Estudante do time da Enactus do IFCE Iguatu
Fique por dentro
Time já beneficiou mais de 3 mil pessoas
Há dois anos, o time da Enactus do IFCE do campus de Iguatu desenvolve na região projetos que já beneficiaram diretamente cerca de mil pessoas e mais de 3 mil de forma indireta. A equipe é formada por 21 estudantes voluntários dos cursos superiores do IFCE (Licenciatura em Química, Bacharelado em Serviço Social e Tecnologia em Irrigação e Drenagem) e conta com o apoio pedagógico de professores e técnicos.
Os três principais projetos são: Projeto Cooperar, que visa ao empoderamento e à formação adequada de 25 catadores de resíduos sólidos de Iguatu; Projeto Linhas, que abrange 20 mulheres da Associação de Artesãs do Alencar, para capacitá-las com cursos de 240h de costura, oferecendo uma fonte alternativa de renda; e Projeto Mudas, que objetiva apresentar e reproduzir um sistema de irrigação mais eficiente e mais barato para pequenos agricultores.
Além de atender a comunidades rurais, também realiza palestras sobre Educação Ambiental e convivência com o Semiárido em escolas particulares e públicas, alcançando mais de duas mil crianças. Essa ação educativa, aliada ao outro projeto de extensão do campus, o "Horta Escolar", conferiu ao time o terceiro lugar no Prêmio Agrinho 2016.
Fonte: DN


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