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"CIDADE DOS SONHOS " AINDA INSTIGA PLATEIAS APÓS 15 ANOS



Em pleno 2017 e ainda estamos falando da famigerada pós-modernidade. Objeto de atenção de diferentes campos do conhecimento humano há quase quatro décadas - desde que o filósofo francês Jean François Lyotard, em 1979, apontou que estávamos vivendo uma condição social diferente, uma condição pós-moderna -, a temática ocupa o imaginário científico, reverbera na estética e pode ser vivida no cotidiano.
Para além do ranço conceitual de muitos estudiosos em relação ao termo - usado demasiadamente por pesquisadores afoitos em dissolver de fato tudo o que era aparentemente sólido -, a queda das metanarrativas humanas, ou seja, a falta de fé e crença diante de grandes narrativas que orientariam a humanidade política e eticamente rumo a um estado de coisas melhor (como o Iluminismo, o Marxismo e a própria Ciência); e, ainda, a compressão do tempo e do espaço proporcionada pelas novas tecnologias de comunicação e informação compõem o cenário que nos leva ao repensar de tudo o que a modernidade estabeleceu, inclusive da noção do próprio sujeito.
Tomado como a medida de todas as coisas na Modernidade, esse homem, ao não saber no que acreditar e o que buscar, sente-se sem rumo, vagando pela sociedade sem compromisso, como um flâneur à procura de um sentido que preencha sua existência - como o protagonista de Antonioni em "Blow up", o fotógrafo de moda à caça da beleza, à procura de um significado que só se revela para suas lentes. Ou ainda como a doce e ingênua Betty, personagem de Naomi Watts, em "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Drive), de David Lynch, cujo desejo de se tornar atriz converte-se em uma perseguição por si mesma.
A obra de David Lynch, aliás, constitui um boa metáfora para compreender o sentimento de fragmentação e desconstrução - para usar um verbete que se "hypsterizou" no momento - experimentado pelos sujeitos nesse novo modo de estar e viver em sociedade.
Se, como bem explica Lyotard, a realidade agora se constrói por meio de jogos de linguagens e consensos provisórios, passíveis de revisão, atualização e ruptura, os sujeitos também aderem a essa disputa de significados e colocam em jogo suas próprias identidades. Desprovido de sua unicidade e essencialidade, o homem pós-moderno exibe diferentes identidades, que ora se complementam ou podem até mesmo entrar em conflito.
A personagem Rita, interpretada por Laura Harring, ao perder a memória e não saber quem é depois de um acidente de carro, personifica o mal-estar (parafraseando Zygmunt Bauman) que a pós-modernidade causa ao destituir o sujeito do pedestal da razão.
Após a colisão frontal do veículo - boa analogia para explicar o impacto de se defrontar com todas as mudanças culturais e políticas vivenciadas nos últimos 50 anos, que nos colocaram nesse estado de insegurança social e individual -, Rita se esconde em um condomínio charmoso de casas, numa ensolarada e amarela Los Angeles, e encontra na amiga Betty a acolhida necessária para descobrir quem de fato ela é.
Para além do tom surrealista da obra, que nos faz questionar se Rita e Betty são de carne e osso ou mera projeção dos anseios e medos da "real" protagonista (aqui arrisco dizer que seja o próprio espectador), fato é que as identidades das duas se entrelaçam ao ponto de uma não existir mais sem a outra. Nesse momento, é possível depreender um dos princípios primordiais dos debates em torno da construção da identidade cultural na pós-modernidade: o jogo entre identidade e diferença.
Identidade
Stuart Hall, Tomaz Tadeu da Silva e Kathryn Woodward argumentam que o processo de definição identitária do sujeito dá-se de fora para dentro e não de dentro para fora, como o senso comum costuma pensar. Para saber quem se é, necessita-se primeiro olhar para fora, para o outro, e perceber o que me diferencia dele.

A partir do reconhecimento da diferença, é possível então olhar para si e aí sim compreender o que me constitui, o que diz quem sou, o que me faz não ser completamente igual ao outro. A construção da identidade pelo reconhecimento da alteridade pode também ser um freio ao individualismo exacerbado, que flerta com o separatismo, com a intolerância e é atiçado, contraditoriamente, por essa mesma pós-modernidade.
As identidades múltiplas na obra de Lynch são evidentes. Diane/Betty e Rita/Camille protagonizam esse jogo de posições que os sujeitos podem performar na realidade e que, dialeticamente, aparecem na oposição entre sonho e realidade contida na película.
A cena em que Rita e Betty encontram-se sexualmente, mais do que uma simples transa lésbica (que poderia ser entendida somente como um agrado imagético ao senso erótico masculino), representa uma tentativa de reintegração da identidade, de união das partes para a composição de um sujeito único. Mas essa ilusão de plenitude do sujeito é apenas mais um devaneio do homem desprovido de referência, largado à própria sorte por Deus e pela razão.
Apesar de o diretor não ter intencionalmente, acredito eu, forjado sua obra para promover a discussão das identidades múltiplas na pós-modernidade, os artifícios narrativos por ele usados para construir a dualidade sonho/realidade (presente em várias de suas obras) nos convidam a olhar para o filme também pelo viés conjuntural, e mostram Lynch como um sujeito fragmentado, um homem pós-moderno.
Seria possível dissertar ainda sobre esses itens estéticos e da própria trama que revelam a faceta de conexão do autor ao tempo presente. Contudo, ficaremos aqui com a permissão para expandir o sentido da produção além da duração da narrativa na tela, o que faz de "Cidade dos Sonhos" uma verdadeira obra de arte.
Obra aberta
Vale relembrar o bom Umberto Eco e sua ideia de obra aberta - que, em linhas gerais, sugere que toda obra de arte é passível de várias interpretações. A leitura aqui descrita, portanto, é a minha, nem melhor ou pior que a sua, apenas diferente. Tanto que há cerca de 10 anos, quando assisti ao filme pela primeira vez, surpreendi-me mais com a narrativa, com a estética das imagens. Hoje, uma mulher diferente, com identidade que aglomera outros elementos em comparação à outrora, olho para a mesma obra de maneira distinta, percebendo algo que só minha própria narrativa intelectual e de vida pode proporcionar.
E, de forma também diferente da de muitos outros espectadores, sobretudo aqueles que clamam por um sentido narrativo linear, "Cidade dos Sonhos" me angustia, assusta e, ao mesmo tempo, fascina - pois aquilo que Lynch aponta como da esfera do onírico, para mim, é mais do que real.
Se tudo o que argumentei até agora é verdadeiro ou mero devaneio conceitual, não importa, afinal é nesse limite entre o real e o simulacro, entre o ser e o parecer, entre fixar e mudar que vivemos a pós-modernidade. Sejam bem-vindos à realidade, à verdadeira Mulholland Drive.
*Naiana Rodrigues é professora do curso de Jornalismo da UFC
Fonte: DN

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